Carta Aberta de uma Terapeuta de Casais
Minha experiência atendendo casais não é recente. Comecei essa prática ainda na faculdade, lá em meados de 2008 e me apaixonei por esse Universo. Ver a relação de dentro, com todas suas nuances e intimidades, e ser depositária das diferentes expectativas de duas pessoas que às vezes estão perdidas dentro da relação, me preenchia de uma maneira inexplicável. Assim, quando terminei minha graduação, fui direto para a especialização em Psicanálise de Casal, pois mais do que entender o que acontece dentro dessa fusão singular entre dois indivíduos, eu queria ajudar eles a se entenderem.
Diferentes tipos de casais já passaram pela minha clínica, tanto na presencial, quando eu atendia no meu consultório em São Paulo, quanto na online. Já vi casais que estavam juntos há muitos anos e tinham filhos; casais que estavam à véspera do casamento e precisavam se certificar que esse era mesmo o caminho. Casais com ampla diferença de idade; casais homoafetivos; casais interculturais (esses que hoje são meu grande público e foco de atendimento). Mas não estou aqui para discorrer sobre minha carreira ou falar sobre o impacto das diferenças culturais na relação. Não, estou aqui para desabafar.
Desabafar pois essa posição de terapeuta de casais não é fácil. Não que seja fácil ser terapeuta de maneira geral, mas quando lidamos com a relação, estamos também lidando com sonhos, com amor e muitas vezes com o maior investimento da vida de alguém. Eu sempre digo nas minhas entrevistas iniciais que o propósito da terapia de casal não é fazer o casal continuar junto a qualquer custo, mas sim que, independentemente do que suceder, trabalharemos juntos para que aconteça da maneira mais saudável para ambos os cônjuges. Pois bem que nem sempre é assim que acontece, e isso não significa que eu falhei como terapeuta. E muitas vezes sim, a terapia mostra ao casal que a melhor saída é a separação, e por mais que eu saiba que esse é o melhor caminho, eu fico triste. Eu fico frustrada. Eu fico questionando se havia algo mais que eu poderia ter dito ou interpretado, ou se algo passou batido e foi justamente essa falta que não trouxe as respostas necessárias para a solução de todos os conflitos.
Às vezes, olhando de fora, sendo o terceiro elemento, fica tão claro quais ajustes precisam ou podem ser feitos para que a relação fique mais leve. E na hora de devolver ao casal, bem, não era tão claro assim. Daí eu me lembro que antes de serem um casal, aquelas duas pessoas à minha frente (ou do outro lado da tela) são dois indivíduos separados. Separados e inteiros, cada um com suas vivências, seus traumas, seus sonhos, suas expectativas e sua maneira de enxergar o mundo e sua própria relação. Que nem sempre o que para mim pareceu claro vai funcionar para o outro, se for contra aquilo o que ele acreditou a vida inteira. Que minhas visões e minhas colocações estão também, antes de tudo, influenciadas pelas minhas vivências, meus traumas, meus sonhos, minhas expectativas e minha maneira de enxergar o mundo. Afinal, se eles antes de serem um casal são dois indivíduos, eu, antes de ser terapeuta também sou um indivíduo. E não, isso não faz de mim uma terapeuta pior, pois é algo inerente à qualquer um.
Voltando a meu desabafo, eu só queria deixar claro que, quando um casal me procura, ele toca uma parte do meu ser que faz sentir-me também responsável por aquela relação. Que eu fico pensando nas sessões depois que elas acabam. Que fico refletindo (e muito), sobre todas as situações em momentos diversos, desde cozinhando, passando por tomar banho e antes de dormir. Que às vezes, depois de uma sessão difícil, fico com vontade de mandar mensagem para perguntar se está tudo bem. Que eu já chorei depois de falas pesadas. Que pacientes já apareceram nos meus sonhos. Que eu me importo. Que eu queria ter o poder de acabar com todos os conflitos e mal-entendidos entre casais, mas que, voltando ao parágrafo anterior, sou apenas uma terapeuta.
Finalizo esse texto com um pedido de desculpas. Desculpas por quando não consegui atender às expectativas. Por quando deixar passar algo que poderia ter feito diferença. Por também estar carregada da minha própria humanidade. Por, mesmo quando tentei o melhor, não ter sido o suficiente. Mas apesar de tudo isso, vou seguir nessa vida de terapeuta de casais, afinal, tem muita história com final feliz aqui. Muito casal que, em lindos e desafiantes processos, conseguiram melhorar sua comunicação; perceber a individualidade do outro, respeitá-la e admirá-la. Casais que entenderam o peso de suas próprias histórias, o qual o outro nem sempre consegue ajudar a carregar. E está tudo bem. Casais que entenderam que a relação não é um ringue de boxe, mas uma canoa onde os dois precisam remar juntos para chegar ao outro lado. Obrigada a todos os casais que passaram pelo meu caminho e fizeram (e fazem) de mim a terapeuta que sou.
Com carinho,
Rachel Schatz

